terça-feira, 13 de maio de 2008

Quase Liquido (itau cultural)



O fluxo de um rio é inspiração para inúmeras metáforas cotidianas, como transcorrer do tempo ou trajetoria da vida. Foi o fluxo do rio tiete, que percorre todo estado de São Paulo, que orientou a exposição Quase Liquido, com curadoria de Cauê Alves.
A mostra na integra o evento multidisciplinar realizado pelo Itau Cultural voltado à compreenção dos aspectos contemporâneos de questões como o meio ambiente e a vida urbana.

Com sua consistencia gelatinosa e mau cheiro, o rio representa no trecho que compreende a capital paulista, indefinição quanto ao seu estado: um estagio de quase liquidez. Essa indefinição simboliza a condição da contemporaneidade, marcada pela fluidez sempre a ponto de se modificar.

As vitrines que Ana Maria Tavares expõe parecem possuir uma estrutura líquida. Nelas vemos paisagens perdidas que, de tão leves e fluidas como a memória, flutuam. Entretanto, esses móveis de vidro que apresentam extrema limpeza formal – geralmente destinados a expor algo de valor – se encontram praticamente vazios. Inspiradas no mobiliário de Lina Bo Bardi, é como se as vitrines pudessem congelar o que está em seu interior. São espaços que parecem provocar uma suspensão do fluxo do tempo.

A videoinstalação Memória, de Artur Lescher, composta de sete telas, paradoxalmente não nos deixa esquecer que a memória é passageira, desvanecedora e perecível. As letras da palavra memória, escritas sobre uma substância viscosa, não se fixam por muito tempo e logo são desfeitas. Se não fosse nossa memória, seria impossível compor as sílabas do vocábulo corretamente. O artista, que já trabalhou com substâncias líquidas, apresenta ainda uma espécie de cachoeira estática feita de metal, que parece fluir e escorrer quase como a água.
Em Inventário das Pequenas Mortes (Sopro), Cao Guimarães e Rivane Neuenschwander acompanham a duração de grandes bolhas de sabão. Como se fosse possível estender seu período de vida, bolhas se alongam no tempo, dançando suavemente no ar. Essa forma semi-esférica e quase líquida que flutua na paisagem e reflete seu entorno lenta e silenciosamente é conduzida pela brisa. Sua fragilidade, assim como a fragilidade da própria vida, é mostrada de modo simples e poético.

Ao estabelecer um paralelo entre a contemporaneidade e a consistência do rio, a mostra trata-se do mundo atual, em que as coisas cada vez mais perdem a constância e a estabilidade e se tornam voláteis, ou seja, quase liquidas. O espaço expositivo se divide entre a sede do Itau Cultural e as margens do rio Tiête, onde está instalada a obra do Pets, do artista Eduardo Srur, composta por 20 garafas inflaveis monumentais, dispostos nos canteiros entre as pontes do Limão e da Casa Verde na marginal Tiête.


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